Que os perfis nas redes sociais mostram o que as pessoas querem parecer - e não o que realmente são - , não é novidade. Basta acessar qualquer uma delas e ver que nas redes de "amigos" há apenas pessoas bonitas, maquiadas, felizes, que vida é uma festa e que leem muito Caio Fernando Abreu. Do lado de cá, sabemos que todos já perderam algumas noites de sono com problemas, que os índices de leitura de livros no Brasil não orgulham e que ninguém acorda de rímel e hálito fresco. Até aí, cada um com seus problemas. Mas um fato semelhante que tem se disseminado na Internet é a cidadania virtual. Isso me incomoda.
São incontáveis os retweets para doação de sangue, mas se todos que se manifestassem na rede partissem para a prática os bancos de sangue não estavam à míngua. Pessoas que postam indignações com a corrupção, mas sequer lembram em quem votaram na última eleição. Colocam na web fotos sensacionalistas de miseráveis que morrem de fome, mas aqui, na vida real, deixam resto de comida no prato.
Não quero bancar o Joãozinho do Passo Certo, longe de mim, que sou cheia de defeitos. Se não quer fazer voluntariado ou participar de protestos nas ruas, mas quer usar a Internet para divulgar boas ideias, ok. Mas acreditar que está fazendo a sua parte apenas curtindo/compartilhando/retuitando o que os outros promovem, não dá! É inegável a força destes meios de comunicação para potencializar manifestos e até mesmo influenciar em questões sociais importantes. Reconheço e aplaudo o cyberativismo. O que não concordo é pensar que se está isento de cumprir a cidadania em detrimento de manifestações na web. O mínimo que se espera de quem se pronuncia em qualquer meio é coerência entre a vida virtual e a real.
Por enquanto, não inventaram Photoshop para retocar as mazelas do mundo. Até lá, ao invés de pensar que pode lavar as mãos em um clique, que tal construir um álbum de ações do bem aqui na vida real? Curtiu?
*Artigo publicado originalmente na página 12 do Jornal NH, edição de 05/11/11.







